Tuesday 17th April
Conto nº 14
Sabe quando os passarinhos cantam lembrando-lhe que já é hora de se levantar? Ou quando o retumbar do grande relógio te lembra de que ei, você já esta atrasada? Ou então quando você simplesmente caminha com um sorriso displicente pelos corredores pensando em uma nova forma de aprontar? É, quando tudo isso acontece você só pode ter certeza de uma coisa: Hoje é dia de POÇÕES AVANÇADAS! E sim, a exclamação está no lugar errado. Afinal quem se sente motivado o suficiente para ir numa aula de poções tão cedo pela manhã? Ou melhor, quem se sente motivado o suficiente para chegar cedo na primeira aula de poções do ano? As marotas que não. Pelo menos parte delas, ou uma semi-parte. Ou o que lá que seja duas doidas descabeladas se embolando corrimões acima pra ver quem conseguia chegar a tempo de encontrar a porta da sala ainda aberta.
- VIVIANNE EU ACORDEI PRIMEIRO ENTÃO SAI DA FRENTE! – Berrava Heloísa com uma expressão sonolenta que não condizia em nada com a ferocidade que lhe saía dos lábios.
- SE A MERYAM ESTIVESSE AQUI VOCÊ NÃO ESTARIA IMPLICANDO COMIGO!
- MAS A MERYAM SUMIU, ENTÃO QUEM MANDA É EU!
- PRA ONDE FOI AQUELA RUIVA?
- Ei, ei, ei, já podem parar de gritar, sabia que vocês estão a apenas dois metros da sala de aula? E a Meryam já está lá dentro, agora façam o favor de entrar logo. – Dizia um aluno-todo-certinho qualquer que elas não se deram ao trabalho de perguntar o nome (não até as férias passarem e ele voltar com um ‘q’ de galã de hollywood e um lado devasso misterioso).
- Deve ter confundido a Mery com outra ruiva qualquer, só pode. – Disse Abanada, revirando os olhos, totalmente descrente que a Meryam tinha chegado antes delas e não as tinham acompanhado corrida-de-corrimão acima. E assim entraram na sala tão calmamente, com aquele ar de curiosidade para saber quem era a ruiva pilantra que estava se passando por Meryam que nem ligaram quando o professor que nem conheciam ainda berrou um alarmante “RETARDATARIOS SENTEM NA ULTIMA MESA E AGUARDEM!”.
- Me… Meryam? – Gaguejaram em uníssono enquanto caminhavam em direção a primeira fila de mesas e já reconheciam aquelas madeixas vermelhas, tão únicas que era impossível copiá-las. Mas ela não ouviu, estava ocupada demais terminando de picar algo parecido com comida de hamster (alguns anos depois essa cena seria descrita por Heloísa como um ato típico de alguém alienadamente-amaldiçoado-por-traidores-verdes-sanguinários). A poção da ruiva já estava quase pronta e alguns passos a frente da dos demais, além de exalar um cheiro que segundo o professor era “característico da poção e prova de que fora feita com maestria”. Bobagem!
- Marotas! Acordaram cedo hoje? Deixei um recado nas mochilas de vocês… Mas pelo visto nem elas vocês se deram ao trabalho de pegar… – Disse a ruiva num ar de desgosto, como se de uma hora para outra tivesse se tornado a marota mais certinha e estudiosa, ultrapassando até a tão-tão-nerd Trianna. Mas a morena e a loira não escutavam mais, estavam se encarando e transmitindo mensagens telepáticas que se pudessem ser traduzidas seriam mais ou menos assim:
- Sinto cheiro de…
- Chocolate!
- NÃO!
- Hamster?
- Sinto cheiro de… maldição!
- ONDE?
- Ali, naquele montículo vermelho debruçado sobre o caldeirão…
- Não!
- Sim.
- Certo. O que faremos?
- Ala hospitalar.
- Eu pego de um lado e você do outro.
- Beleza.
E assim se viraram e olharam para a ruiva com aquele olhar ameaçador de agentes do FBI nada disfarçadas.
- Você vai conosco.
- Tão pirando na batatinha?
- Tem algo cheirando mal aqui, então trate de nos obedecer.
- HELLO! Eu ‘tô fazendo uma poção aqui se vocês não perceberam, e além do mais o professor não permite a saída de alunos antes do término da ativ… – Mas ela já estava sendo erguida pelas outras duas, que por serem bem mais altas que ela não sentiram tanta dificuldade em tirá-la da carteira e arrastá-la sala de aula a fora.
- PRA ONDE VOCÊS PENSAM QUE VÃO? – Gritava um professor sempre alterado.
- É QUESTÃO DE VIDA OU MORTE! E SE EU FOSSE VOCÊ NÃO CHEGAVA PERTO DESSE CALDEIRÃO, ESTÁ CONTAMINADO! – Gritou a morena de volta.
- Começa a falar ruiva, quem foi a última pessoa que você viu antes de se sentir assim? – Perguntava Vivianne enquanto um pedaço de pergaminho com uma pena de escrita rápida aparecia flutuando na sua frente e anotava tudo que ali se passava.
- Eu, ahn, me sentir como? O que deu em vocês? Eu realmente preciso terminar aquela poção.
- Começou depois da detenção com o professor de poções não foi?
- Detenção? Quem pagou detenção foram vocês!
- Certo, próxima pergunta. Heloísa?
- Qual é o décimo-segundo bichinho de pelúcia que a Anne mantém escondido na terceira prateleira de seu armário abandonado da quinta sala de armários abandonados da antiga galeria do segundo andar?
- …
- Essa é a prova final, ela tá amaldiçoada.
- ISSO NÃO FAZ SENTIDO!
(…)
- PRECISAMOS DE UM MÉDICO AQUI! – Gritava a morena adentrando a Ala Hospitalar aos trancos e barrancos, enquanto ainda puxavam a ruiva atrás de si. Essa, coitada, encontrava-se com ataduras desde a boca até os tornozelos, afinal era uma das poucas coisas que Vivianne sabia conjurar com perfeição e segundo Heloísa “fariam o demônio continuar preso em seu corpo”.
- Em que posso ajudar? – Perguntava alguma espécie de homem não-catalogado recém saído da sala do velho e rabugento Dr. Hoffstader (lê-se como não-catalogado: olhos azuis, peitoral definido, alto o suficiente para fazer enlouquecer, cabelos com ar de “acabei de acordar” e um sorriso que ah!, leva qualquer uma aos céus em questão de minutos).
- Eu já estou morta, é isso?
- Você eu não sei, mas eu tenho quase certeza que estou.
- Senhoritas, o que há de errado? – Voltava a perguntar o homem, lançando o olhar de uma para outra e em seguida reparando na pobre ruiva que tinha sido largada ao chão como um fardo qualquer.
- Queríamos chegar a ala hospitalar, mas entramos por engano no paraíso, diga-me, você é sempre assim ou tem algo especial pra hoje? – Perguntava Vivianne com um ar sedutor, enquanto jogava os cabelos pra um lado e fazia uma pose qualquer de piriguete-do-pedaço.
- Eu… Eu sou novo por aqui e não estou conseguindo seguir sua linha de pensamento, senhorita. Faça o favor de dizer o que as trouxe aqui ou terei que chamar o Dr. Hoffstader…
- Um estagiário então? – Perguntou Heloísa erguendo uma das sobrancelhas já com mil e um pensamentos maléficos na cabeça.
- Sim.
- Idade?
- 20… Moças! Por favor me digam o que as trouxe por aqui, temos outros pacientes pra tratar e sinceramente, acho que deveriam cuidar melhor das suas amigas… – Respondia enquanto olhava pra algum ponto no fundo, onde a ruiva se arrastava como uma minhoca em direção a uma das macas a fim de encontrar algum apoio para se erguer.
- Ok, ok! – Disse Heloísa revirando os olhos. – Aquela lá é nossa amiga, e cá pra nós, ela tá com algum tipo de possessão. Demoníaca ou não, o senhor pode cuidar dela por favorzinho?
- E eu estou com uma dor tão estranha doutor, talvez eu mereça uma massagenzinha também, que tal?
- Almofadas, cala a boca! – Mas o estagiário não as escutava mais, estava indo em direção a recém-mumificada Meryam e pondo-a de pé. Com um rápido movimento da varinha tirou todas as ataduras de seu corpo e com uma das mãos ajeitou seus cabelos um tanto desgrenhados enquanto lhe olhava nos olhos.
- Tudo bem, senhorita?
- Uhum. – Isso e um aceno positivo de cabeça foi tudo que ela conseguiu dar em resposta, pasma com tamanha beleza a sua frente.
- ‘To dizendo, se não for demônio é uma daquelas maldições que te levam pra Azkaban, é sim.
- Eu acho, senhoritas, que a única coisa que ela tem de errado são os machucados que vocês mesmas causaram, mas já que insistem… Tome, beba isto. – Falava enquanto tirava um frasco contendo uma bebida translúcida de um dos bolsos e entregava a ruiva. – Isso deve retirar qualquer tipo de maldição que lhe foi depositada, seja por feitiço ou por alguma poção. Então, sente-se melhor?
- Não que eu estivesse ruim, mas estou bem melhor agora…
- EU DISSE QUE ELA TAVA POSSUÍDA!
- Eu não tava nada.
- Então como você explica o ocorrido na aula de poções?
- OH GOD, A AULA DE POÇÕES! Minha poção. Eu ainda mato vocês, marotas! – E com mais uma rápida olhadela no doutor salvador-de-vidas saiu correndo corredor a fora, em direção a sala que já haviam deixado a longos minutos.
- Doutor… – Já começava a falar com uma falso-tom-sexy a jovem Heloísa, mas ele já estava longe. Preocupava-se agora com seus verdadeiros pacientes, sem ao menos se lembrar das duas agora já-apaixonadas jovens a sua espera.
Não é preciso mais nada para afirmar que ambas perderam a aula seguinte e resolveram acampar em frente a ala hospitalar, não é mesmo? Podemos dizer ainda que só se deram por vencidas quando já era tarde e seus estômagos roncavam mais do que suas ânsias malucas por médicos sedutores. Desciam rapidamente corrimões-de-escada abaixo em direção a cozinha quando deram de cara com Meryam, que voltava da mesma, com algumas ataduras ainda visíveis sob a capa.
- MÃOS AO ALTO!
- Eu já disse que eu não ‘tô possuída.
- Então o que deu em você? Pode ir abrindo o bico.
- Oras, só comecei a me interessar por poções… É tão ruim assim?
Era. O interesse da ruiva parecia não só envolver poções, e sim todas as matérias relativamente importantes que as outras vieram empurrando com a barriga durante todos esses anos. O porquê dessa reviravolta ninguém sabe, mas pelo menos ela não tocara o lado maroto pra escanteio, ela apenas sabia viver das duas maneiras agora, e aproveitava as duas com extrema eficiência.
O fim de semana foi muito bem recebido pela ruiva, que aproveitando sua posição de líder mandara todas as amigas a deixarem em paz para que ela pudesse recuperar as preciosas horas de sono perdidas durante a semana de noite viradas para que elas pudessem se atualizar de tudo e para estudar, claro.
Já estava de tarde quando ela acordou, sem motivos aparentes. Levantou-se preguiçosamente depois de tentar, sem sucessos, voltar a dormir. Abriu o cortinado e, com os olhos meio embaçados pelo sono e pela repentina luminosidade, fez os passos conhecidos pelo quarto: Dois para frente, desvia da caminha do Gachorro, mais cinco passos para frente, fecha a janela na cara de Andrew enquanto chuta uma muda de roupas largada no chão pra debaixo da cama de Anne e agora ela pode continuar o caminho finalmente enxergando direito…
- Para tudo um segundo! Mas o quê…? – ela exclamou, dando ré e abrindo novamente a janela da torre, para se deparar com um Andrew massageando o nariz enquanto fazia uma careta.
Um leve movimento a fez perceber que o Corvino encontrava-se montado em uma vassoura, o que explicava COMO raios ele conseguira chegar até a torre do sétimo andar do castelo pelo lado de fora.
- O que raios você está fazendo aqui? – a ruiva questionou, sem se preocupar se estava ou não sendo um bocadinho rude. Afinal, ela não era conhecida por apresentar um humor muito agradável durante as manhãs (ou tardes).
- Pensei que a Trinny estivesse por aqui, tem uma coisa que eu queria mostrar para ela o quanto antes… Você sabe dizer onde ela pode estar agora? Já passou do horário de almoço e ela não apareceu.
Demorou um momento para que Meryam vasculhasse sua mente atrás do possível paradeiro da amiga, quando lembrou-se do motivo da ausência da morena um sorriso malicioso se formou em seu rosto.
- Andrew, querido… Lembra-se de quando nós sumíamos nos bons dias do terceiro ano? – a ruiva pergunta, seu tom fazendo com que o moreno erguesse uma das sobrancelhas – Pois é, agora retire toda a inocência e acrescente hormônios em fúria de um cara de dezessete anos e aí você sabe que não quer achar a Aluada por hoje.
Meryam ri-se enquanto deposita duas tapinhas de leve no ombro do garoto, seguindo novamente seu caminho em direção ao banheiro e antes mesmo de entrar no recinto, a ruiva retirou o camisão de Math que usava para dormir e o jogou longe, – acidentalmente em cima de Andrew – antes de fechar a porta atrás de si.
Ela não chegou a perceber a expressão ilegível que se formou no rosto do garoto quando ele finalmente entendeu a informação que ela lhe dera. Quando a camisa masculina lhe caiu sobre os olhos foi quando finalmente ele se deu por si, puxou a peça de roupa de sua cabeça e simplesmente se dirigiu para seu próprio dormitório, entrando pela janela que havia deixado aberta ao sair.
Uma rápida olhada no recinto e ele viu Math sentado no chão, de pernas cruzadas e costas apoiadas na parede, comendo um pudim de cor rosada, provavelmente de cereja.
Depois de tanto tempo em contato com os pudins exóticos que o amigo arranjava, ele estranhamente conseguia acertar nove em onze vezes, qual era o sabor da inusitada sobremesa.
- Cereja? – ele perguntou, apontando para o pote nas mãos do loiro.
Math levantou a cabeça e ergueu o polegar para Andrew, demonstrando que ele havia acertado. Deu de ombros, era mais um talento inútil para adicionar à sua lista. Foi então que ele percebeu que a camisa masculina que Meryam usava encontrava-se presa na vassoura. Revirou os olhos e desprendeu a “vestimenta” da vassoura, um leve arrepio passando pelo seu corpo ao lembrar-se do rápido vislumbre que teve da ruiva sem ela, um ou dois segundos antes da porta tapar sua vista completamente…
Sacudiu a cabeça freneticamente, às vezes odiava o fato de ter uma memória invejável. Odiava mesmo.
Ótimo, agora sua cabeça lhe lembrava da fala da ruiva poucos momentos antes da cena em sua mente. A parte dos “hormônios em fúria” não lhe agradava nem um pouco.
Nem de lembrança.
Com o cenho franzido, retirou um pequeno livro de suas vestimentas, um livro sobre astronomia que a Monitora mencionara com grande interesse no ano anterior. Ele achou o título perdido numa das várias idas à livraria próxima a sua casa em Glasgow, onde passara mais ou menos todas as férias lendo…
Ou trocando cartas com Trianna…
Estava imerso em pensamentos quando finalmente lembrou que tinha companhia.
E que essa companhia o lançava um olhar esquisito.
Bem esquisito.
Tenso.
- O pudim está fazendo mal, Mathew? – ele perguntou, bem humorado, mas só fez com que o Evans limpasse a garganta e lhe lançasse outro olhar esquisito.
- Ahn, olha, eu não sei como te dizer uma coisa dessas. Você é um cara legal e tudo, até um pouquinho bem apessoado, mas… Eu realmente não sou dessas coisas, fico lisonjeado e tal… Talvez se você procurasse o Josh poderia ser que a coisa desse certo… Certo que ele não é tão bonitão quanto eu, mas não é isso que importa no final…
Agora as sobrancelhas do Muller estavam franzidas ao máximo.
- Math, você está me assustando.
- Olha, não sou eu que está segurando uma camiseta velha minha numa mão, um livro sobre estrelas na outra, tendo arrepios e com um olhar de peixe morto, ok?! – o loiro exclama, deixando o pudim de lado e se levantando rapidamente. Claramente desconfortável.
Andrew teve que se conter para não rir.
- Relaxa, a Meryam estava usando essa camisa para dormir, aí ela ficou presa na minha vassoura quando ela jogou na minha cara antes de ir tomar banho e pouco antes que eu saísse do dormitório dela agora há pouco… – ele explicou, as palavras saindo sem que ele desse conta das mesmas.
Math fez uma expressão de alívio momentâneo, que logo foi substituída por uma de descrença quando ele “compreendeu” a frase.
- É o que, Muller?! Cê já tá nos rala e rola com a minha irmã DE NOVO? – e pulou em cima do companheiro de dormitório.
O-ou.
Para alguém tão inteligente, Andrew às vezes conseguia falar muita merda.
- Ei, ei, ei! CALMA. Não aconteceu nada! Ai! – Andrew exclamava, tentando tirar um insano Mathew, que sacudia sua cabeça sem parar, das suas costas. – Puta que pariu, Math, me larga!
O loiro parou gradativamente até descer das costas do moreno, apesar de ainda o olhar com desconfiança.
- Não ‘tá rolando nada entre você e a minha irmã de novo não, né?
- Não.
- Jura?
- Juro.
- Juradinho? Você juraria de dedinho se fosse preciso?
- Math, você acaba de perceber que segundos atrás você estava me acusando de ser gay e que agora está me pedindo para fazer um juramento de dedinho?
- Não mude de assunto, Dellacotrix!
- Porra, você sabe que eu odeio esse sobrenome. Vá pastar, vai.
- Certo, certo. Só pra garantir, nada aconteceu… Ou vai acontecer, né? – Andrew acenou positivamente com a cabeça, no que o loiro soltou um audível ufa – Ainda bem, pensei que você estivesse voltando à insanidade que era gostar da ruiva. Por um momento eu temi que tivesse perdido você de novo…
Andrew revirou os olhos.
- De novo: E você estava me acusando de ser gay, ein?
- Cala a boca.
(…)
Confusões a parte, amores platônicos em outra; estudos demasiadamente demorados e pegações às escondidas fizeram com que os dias passassem rápido e o outono não tardasse a se estabelecer nos gramados ao redor do castelo. Nos primeiro fins de semana já era notável os vários montinhos de folhas secas e, consequentemente, três marotas preguiçosamente deitadas nos mesmos.
Meryam e as meias-irmãs Brenneisen praticamente correram para fora do castelo no minuto em que terminaram de comer alguma coisa na cozinha, já que o sono as impedira de comparecer ao almoço.
Os paradeiros de Trianna e de Anne encontravam-se desconhecidos, mas elas tinham quase certeza de que quando as achassem, seria com os respectivos namorados.
Então simplesmente, deixaram pra lá.
- …e aí ele virou ‘pra gente e disse “Rápido, entrem no armário de vassouras!” com a voz meio rouca de sono. Juro que teríamos conseguido nos esquivar da Professora Chang se a Vivy não tivesse entrado no modo-piriguete e parado de fazer tudo pra dar em cima dele! – Heloísa comentava uma das saídas noturnas das irmãs no ano anterior, na qual elas descobriram que o novo zelador na verdade era gente boa e que não gostava de dedurar alunos famintos no meio da madrugada.
- Ei, não tenho culpa se ele é bonitão. – a loira se defendeu.
- Ele tem trinta anos!
- Continua sendo um coroa bonitão. – ela argumentou, fazendo com que Meryam risse e Heloísa revirasse os olhos, tentando conter o riso.
- Eu ainda não acredito que não vi esse homem ainda… – comentou a Evans, ainda com o ar de riso – Ah, e por falar em zelador… Sabe o que a gente deveria fazer?
- Diga, ruiva.
- Ir à Hogsmead, tenho que reabastecer meus suprimentos de logros e doces… Math comeu tudo o que eu tinha. E também quero rever o Filch.
Não foi preciso falar mais nada e meia hora depois elas já se encontravam no vilarejo.
Não precisou muito tempo para que a ruiva constatasse que a vila não havia mudado em praticamente nada. O reabastecimento foi igualmente rápido, mas a conversa com Filch teve que ser adiada, pois ele se encontrava em Londres, Madame Rosmerta comentou o porquê, mas o motivo não se fixou na cabeça de nenhuma delas.
As três já estavam se dirigindo para a clareira atrás do Cabeça de Javali, onde se encontrava a passagem secreta utilizada por elas, quando uma voz masculina vinda de dentro do pub lhes chamou a atenção, fazendo com que elas se entreolhassem espantadas.
- Joseph!? – exclamaram, em uníssono, e sem seguida se precipitaram para a porta do bar.
Uma vez que entraram no estabelecimento, foi fácil detectar o Corvino sentado numa mesa conversando energicamente com um morador desconhecido sobre alguma coisa envolvendo elfos domésticos e política.
Elas também não puderam deixar de notar o copo mais que suspeito que se encontrava nas mãos dele.
- Ora, ora. O que temos aqui? – a ruiva comentou ao chegar perto da mesa, se apoiando num dos ombros do amigo.
- Mademoiselle Meryam – ele cumprimentou, depositando um suave beijo nas costas da mão da ruiva. O sotaque da terra natal do Corvino começava a se tornar presente para quem prestasse atenção.
Heloísa e Vivianne o encararam com um misto de estranheza e divertimento, era impressão delas ou ele estava tomando…
- Firewhisky? – a marota ruiva perguntou, depois de dar uma rápida provada no copo do amigo – Wow, jurava que você era o tipo de cara que tomava Hidromel ou semelhantes.
Krusck deu de ombros.
- O vinho dos elfos estava em falta.
- Oh – a ruiva soltou, acenando positivamente e parecendo compreender perfeitamente a situação em que o amigo se encontrava.
O homem que acompanhava Joseph despediu-se rapidamente, aproveitando para convidar o Corvino para continuar a conversa interessantíssima que estavam tendo em uma outra hora, no que o mais novo concordou.
As três rapidamente se sentaram à mesa.
- Olha só, você conseguiu um segundo encontro Seph! – Meryam brincou, fazendo uma vozinha irritantemente empolgada e consequentemente arrancando risadas dos outros da mesa.
As meias-irmãs (que ainda estavam se recuperando do choque de terem visto o garoto mais “certinho” de toda Hogwarts bebendo) pareceram relaxar mais à medida que as brincadeiras se faziam mais presentes.
- Oh, mas eu só verria interesse em um segundo encontrro se este fosse com uma mademoiselle tão exuberrrante quanto uma de vocês, mon cher. – ele retrucou, galantemente, fazendo com que as sobrancelhas da Evans se erguessem. Por causa do sotaque francês incrivelmente acentuado com que ele pronunciava as palavras e pelo sorrisinho malicioso que ela nunca antes tinha visto decorar a expressão do moreno.
Vivy não perdeu tempo antes de estender a mão na direção do garoto (sim, ela também queria ganhar beijo na mão, ué), enquanto fazia uma expressão forçada de puro deleite.
- Sinto-me lisonjeada com seu ponto de vista, Jose. – ela declarou, para então sentir o beijo que o amigo depositara em sua mão previamente estendida.
Heloísa revirou os olhos, rindo, e em seguida sussurrando um “piriguete” na direção de Meryam, enquanto apontava para a loira ao seu lado. E, é claro, fazendo a ruiva gargalhar sonoramente.
O clima de pseudo-flerte que se encontrava perdurou por mais alguns minutos, até Joseph terminar o seu copo e Meryam prontamente se levantar.
- Vou lá pegar a próxima rodada, alguém mais além do nosso amigo Casanova aqui vai querer? – ela questionou, e Heloísa rapidamente ergueu o braço.
Vivy lançou-lhe um olhar de questionamento.
- Que foi? Se o Joe pode eu também posso, ué!
A marota não demorou a voltar, equilibrando três copos na mão.
- Não se preocupem, eu me certifiquei de que ele deu uma lavada segura nesses copos antes de servir as bebidas. – ela declarou, ao se sentar e passar a bebida para Heloísa e Joseph.
- Saúde! – a morena exclamou, solvendo um gole generoso até de mais logo em seguida…
… Só para se engasgar por causa da sensação de queimação que a bebida causava em sua garganta.
- Vai com calma aí, Abanada! – Mery exclamou, enquanto Vivy dava tapinhas nas costas da irmã, para que ela se desengasgasse e pudesse voltar a respirar. Alguns minutos depois a Brenneisen morena finalmente conseguiu regularizar sua respiração e agora direcionava uma careta hilária para o copo na sua frente.
Meryam soltou uma risadinha enquanto finalmente começava a bebericar do seu próprio copo, um sorriso involuntário se formou em seu rosto enquanto ela sentia a já conhecida ardência característica da bebida, com um olhar de esgueira para Joseph era possível notar a mesma reação no garoto.
- Como é que vocês gostam disso? – Almofadinhas perguntou, logo depois de bebericar um pouco do copo da irmã. Afinal provar não mata ninguém, não é mesmo?
Pontas e Joseph se entreolharam. A primeira deu se ombros em seguida.
- Me chame de estranha mas eu gosto, da ardência, do gosto e da sensação de coragem que a bebida provoca em você, então…
- Já eu realmente prefirro degustarr um bom Vinho dos Elfos, ou Hidromel. Mas você se acostuma com o tempo, mademoiselle – o Corvino completou, dando um gole no próprio copo, para reforçar seu ponto, indicou Heloísa tomando mais um pouco do Whisky e, dessa vez, fazendo uma careta leve ao invés da expressão de “vou morrer” de antes.
Meryam acabou por retornar mais duas vezes para pedir outras rodadas no balcão, antes de se irritar e pegar logo a garrafa toda, que se encontrava próxima da metade.
Gastaram o resto da tarde na empreitada de terminar a garrafa – até mesmo Vivy “ajudou”, tomando um copo – e conversando frivolidades.
O sinal de que era hora de voltar para o castelo veio quando Abanadinha começou a querer subir em cima da mesa para dançar, mesmo não havendo nenhuma música tocando.
- É um peso leve, a pobre.
- Ok, hora de voltar! – a loira declarou, sendo apoiada por Meryam (meio a contra gosto), que ajudou Joseph no processo que foi pagar a conta, enquanto Vivy persuadia a irmã a deixar a “brilhante” ideia de subir em cima da mesa de lado.
Conseguir tirar os dois bêbados daquele bar e colocá-los na passagem secreta foi uma vitória pessoal para as duas e o caminho pela mesma foi igualmente desafiante. Foi com muita, muita luta mesmo que eles alcançaram o armário atrás do quadro.
Agora o problema era como levar esses dois pelo castelo sem serem pegos.
Foi aí que Meryam teve uma luz.
- Opa, acabei de me lembrar que conheço um feitiço de Sobriedade que pode deixar eles dois normais. Mas com uma baita dor de cabeça.
- Sério que você nos fez andar ‘barra’ escorregar todo o caminho tendo que ouvir a Abanada cantar “Um ‘efolante’ incomoda muita gente” quando na verdade poderíamos ter deixado esses dois mais ou menos sóbrios?
A ruiva sorriu amarelo.
- Desculpinha?
- Eu te odeio nesse momento, Pontas.
- … quarenta e sete eli-fofantes incomodam muita gente! Quarenta e oicho efolantes incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam, incomodam… Ahn? Opa, perdi a conta. – cantarolava a bêbada Heloísa, rindo – Bem, tanto faz… Incomodam muito maaaais!
O olhar que Vivy lhe lançou foi o suficiente para que Meryam se apressasse em sacar a varinha e lançar o feitiço. Primeiro em Joseph, porque a essa altura ele já falava exclusivamente em francês e ela julgava que ele seria de muito mais utilidade estando normal.
O feitiço atingiu-o em cheio entre os olhos, e a expressão dolorida que ele fez desarmou temporariamente as duas Marotas sóbrias, que se apressaram para ajudar o Corvino e babar o mesmo, mesmo com as insistentes declarações de que estava melhor – felizmente agora feitos com a voz e o sotaque britânico de sempre – e que elas deveriam se apressar e curar Heloísa logo. Decidiram-se por aceitar a ideia.
O único erro de cálculo foi que quando elas se viraram para onde antes se encontrava a Marota morena, encontraram o vazio.
- Puta que pariu, perdemos a Abanada! – foi a primeira frase que a ruiva conseguiu externar, sendo mais ou menos o sentimento dos três ali. Bem, no caso de Joseph vocês poderiam acrescentar uma potente dor de cabeça na lista sobre o que ele estava sentindo.
Uma busca desenfreada por Heloísa se iniciou depois disso, só tendo uma pausa quando chegaram mais ou menos na porta do Salão Comunal da Corvinal e Meryam parou todos para convocar Math para ajudar.
Enquanto isso, no salão comunal da corvinal…
Um loiro se encontrava jogado numa das poltronas do salão, conversando vagamente com um colega de dormitório. Cold o havia largado para se agarrar com uma garota do quarto ano e Josh estava em detenção – algo sobre revidar as azarações que uns alunos mais novos lançaram nele. A mando das Marotas, é claro – então ele não tinha muito mais o que fazer.
Se bem que de vez em quando ele até gostava de parar e fazer nada, então estava de boa.
Um grito abafado chamando pelo Evans pôde ser ouvido naquele momento, cortando-lhe a calmaria. Math afundou-se na poltrona, um único pensamento passando pela sua cabeça:
“Qual sabor de pudim eu deveria ir comer agora?”
Ok, talvez ele no fundo também se perguntasse o que raios sua irmã queria com ele para chamá-lo tão freneticamente, mas ele realmente queria ignorar os chamados e ir comer pudim.
O colega de Math o olhou, interrogativo.
- Apenas ignore. – o loiro declarou, tentando voltar à conversa.
Nesta hora a porta da comunal se abriu, dando passagem para Joseph entrar no mesmo. Ao fundo, ele vislumbrou sua irmã e Vivy gesticulando desesperadamente na sua direção e ele notou que seu amigo iria fazer menção a isto.
Cortou-o com um movimento de mãos.
- Sério, ignore.
Ele realmente ia continuar com o plano, só que Andrew apareceu na porta do dormitório, uma toalha amarrada na cintura e a irritação estampada em seu rosto.
- Math! O Walt está tentando copular com o meu travesseiro de novo! Ninguém pode mais tomar um banho sem ter o travesseiro abusado nesse dormitório, não? – o moreno reclamou, ele geralmente não perdia a calma facilmente, mas a ideia de deitar a cabeça num travesseiro que foi sexualmente abusado por uma coruja não o agradava em nada.
Math fez uma careta, Joseph já estava ao seu lado, falando algo sobre precisarem de ajuda para achar algo. Ele teve que ponderar sobre a situação em poucos segundos.
Levantou-se num pulo e saiu puxando Joseph pelo braço, em direção à saída do Salão Comunal.
Deve-se comentar que ele quase levou o busto com a réplica do Diadema de Rowena Ravenclaw junto nesse processo.
- Math, rápido! Precisamos de ajuda, chame o Cold. – Vivy exclamou, pondo as mãos no ombro do garoto e fazendo o loiro franzir o cenho “Ora, se elas queriam o Cold por que raios tavam me azucrinando na porta da Comunal?” foi a primeira coisa que passou por sua mente.
Depois ele lembrou que o Grifinório não estava atualmente disponível para ninguém além da menina lá.
- Esse aí eu não quero achar tão cedo, tá no meio de um encontro.
Suas palavras tiveram um efeito estranho na loira, que o largou no ato, fazendo careta.
Sua irmã, ao contrário, pareceu tomar a dianteira da situação.
- Ah, então a gente se vira com o que tem, não temos como perder mais tempo! Precisamos achar a Abanadinha!
- O que tem de tão grave que vocês estão procurando ela como se ela não aparecesse há dias?
- O problema é que ela ‘tá vagando por aí bebinha da silva! E a McGonagall pode topar com ela a qualquer minuto!
- Você embebedou a Helô?! Você tem titica de Walt na cabeça, ruiva?!
- Ei, nós, ok? Não ponha toda a culpa em mim! Ela tomou por que quis. – ela se defendeu – Mas, foco! Temos que achar ela antes da tia Minnie e da Xing Ling!
Eles dividiram-se, cada um cobrindo mais ou menos dois andares do castelo. Vivy fora procurar nos dois últimos, pois assim ela poderia vasculhar o dormitório e tentar achar Anne para ajudá-los. Mery com o térreo e o primeiro. Joseph só com o segundo porque, mesmo negando e tentando disfarçar, o moreno estava sofrendo de uma enxaqueca das boas.
Restou para o loiro os outros andares.
O Evans procurou em salas abertas e – fechadas –, armários de vassouras, atrás de quadros, tapeçarias e estátuas, dentro de armaduras, escadas, e até olhou uma ou duas vezes para cima, só para se certificar de que ela não havia dado um jeito de se dependurar numa lamparina ou outra. Fez isso em dois andares.
Estava quase desistindo quando um assobio lhe chamou a atenção, logo em seguida sons de passos desregulares vindos de um corredor à sua esquerda chegaram aos seus ouvidos.
- Oi, tem uma amiga minha alterada por aí? – ele questionou, aproximando-se do local e foi com uma onda de alívio que ele distinguiu a Marota, saltitando pelo local mal iluminado. Foi impossível deixar de notar as roupas desarrumadas da garota e o cabelo desgrenhado, uma olhada mais crítica fez com que ele notasse um ou outro rasgo na roupa casual que vestia e um ponto arroxeado no seu braço.
“O que raios essa daí andou fazendo?” perguntou-se mentalmente.
- Maaaaaaaath! – ela exclamou, feliz, aproximando-se rápida e desajeitadamente.
- Ei, você. O que andou aprontando longe das nossas vistas? – ele perguntou, já procurando uma maneira de convencê-la a se deixar guiar até o seu Salão Comunal.
Mas antes que ele pudesse tentar alguma coisa, a morena jogou os braços em volta de seu pescoço…
… E colou seus lábios nos dele.
Não foi exatamente um beijo, Math sinceramente sentiu-se como se tivesse sido atacado por um tipo de predador e acabou paralisado no canto onde estava, enquanto a carnívora-Heloísa-bêbada lhe atacava.
Sua reação só veio quando sentiu a garota começar a cair, inconsciente, e ele segurou-a para evitar que ela se estatelasse no piso do castelo.
Olhou ao redor em um pseudo-pânico, pensando no que fazer agora e só depois de uns longos minutos que ele decidiu-se por levá-la para o Salão Comunal.
Um feitiço de levitação depois e ele caminhava pelos corredores, agradecendo o fato de que já estava tarde e se forçando a se concentrar no feitiço ao invés de ficar remoendo o acontecido. Alcançou o quadro da Mulher Gorda em poucos minutos e só então lembrou que teria de esperar uma das marotas para que elas pudessem cuidar da amiga bêbada e deixá-la no dormitório.
Resolveu então que esperaria ali e sentou-se no chão e mantendo Heloísa deitada com a cabeça em seu colo. Agradeceu mentalmente que o quadro estivesse dormindo e não fazendo perguntas inconvenientes sobre a situação estranha.
Droga, ele nunca quis tanto um pudim como agora.
Sunday 18th March
Doctor Who rewatch: Voyage of the Damned
Thursday 1st March
Tuesday 17th January
Conto nº 13

Trianna caminhava pela estação King Cross acompanhada de seus pais, mas os dois pareciam querer sair dali o mais rápido possível. Ela tinha plena consciência de que ambos só insistiam em acompanhá-la para manter certas aparências com os colegas de trabalho que também possuíam filhos em Hogwarts.
Assim que chegaram à plataforma 9¾ os dois deram uma rápida desculpa e sumiram de sua vista, como sempre faziam desde que receberam a notícia que ela fora parar na Grifinória e não na Corvinal, descumprindo a tradição de sua família.
Nem mesmo o distintivo de monitora que chegara naquele verão acompanhado de sua lista de materiais para o quinto ano fizera com que seus pais tivessem orgulho da filha que tinham.
Entretanto, a morena não se deixava abater com o tratamento que recebia de seus progenitores desde que entrara para a casa rubro-dourada, como fizera nos anos anteriores. Ela tinha ótimas amigas e um namorado perfeito demais para deixar-se abater com aquilo.
Com uma breve revirada de olhos, Trianna seguiu seu caminho pela plataforma, acenando e sorrindo para seus conhecidos. Em certo ponto ela pôde ver um aglomerado de garotinhas da Corvinal e, no centro do mesmo, conseguiu distinguir Joseph e Andrew – o primeiro apresentando o distintivo de monitor da Corvinal no peito –, acenou de leve para os amigos, seguindo caminho rapidamente.
- Trianna! – a voz conhecida e feliz lhe chamou, ao se virar, a morena deu de cara com Anne, que acenava entusiasticamente enquanto puxava Diego pela mão.
O garoto falou algo no ouvido da namorada (Os dois começaram a namorar no fim do quarto ano. Depois de muita “ajuda” por parte das marotas) e se despediu da mesma com um rápido – porém muito carinhoso – beijo nos lábios, dando tchau para a Trianna e andando em direção à um grupo de sonserinos em seguida.
- Ele foi encontrar-se com uns amigos – explicou a loirinha, aparentando estar extremamente feliz. Juntas as duas marotas entraram no trem e foram em busca de uma cabine vazia, esperando suas amigas dentro desta.
As irmãs Brenneisen apareceram apenas quando faltava muito pouco para a partida do trem e, como sempre, fazendo festa.
- E aí senhora monitora, posso ver o famoso distintivo? – Heloísa pediu, num tom brincalhão, apontando para o objeto que brilhava no peito da amiga morena.
- Claro – Aluada respondeu, soltando o distintivo de sua blusa e entregando-o nas mãos da amiga – Aliás, eu tenho que comentar, pensei que vocês fossem me deserdar das marotas no momento em que ficassem sabendo que virei monitora.
- Claro que não – as meias-irmãs exclamaram, em uníssono, parecendo insultadas com a falta de credibilidade que a amiga dava para elas.
- E, além do mais, isso só significa que temos um interno para acobertar as nossas marotices! – Vivy constatou, mandando uma piscadela para Trinny.
- Vocês sabem que eu não vou fazer isso, né?
- Claro que vai.
- Não, sério. Eu não posso fazer esse tipo de coisa. – a morena de olhos verdes falou e as outras parecerem perceber que ela falava sério.
Heloísa então encarou novamente o distintivo, só que agora ela sentia como se o objeto fosse uma espécie de bicho peçonhento, pronto para dar o bote e envenenar o antro de marotices com seu veneno autoritário e maligno. Então ela fez o que qualquer pessoa sensata faria:
Ela arremessou a coisa o mais longe que conseguiu.
- HELOÍSA! – a outra morena gritou, mas não perdeu tempo e sacou a varinha – Accio Distintivo! – exclamou, observando o objeto vir voando rapidamente na sua direção.
Ao menos até que o mesmo atingisse um secundarista desprevenido que havia posto a cabeça para fora da cabine, numa tentativa de ver do que se tratava a gritaria. Trianna e Heloísa saíram da cabine rapidamente, para ver como o garotinho estava.
- Ai, Merlin. Mil desculpas! – Trianna falava, enquanto examinava o garotinho nocauteado. Depois de ter pego seu distintivo, claro.
- Eu sabia! Esse troço é maligno, Aluada! – Heloísa exclamou, ao chegar perto dos dois, enquanto apontava para o objeto.
A discussão que se sucedeu à cena durou até a hora em que Aluada foi chamada para a reunião de monitores, sendo toda realizada em vozes baixas para não acordar o pobre garotinho de 12 anos que fora vítima do broche maligno e que Trianna havia levado para a cabine das marotas com a intenção de cuidar do mesmo até que ele acordasse. Ou até que chegassem em Hogwarts e ele pudesse ser levado para a Ala Hospitalar.
O garotinho só voltou a acordar com o balançar da carruagem que os levava para Hogwarts, já quando estavam bem próximos da escola e conversou brevemente com as quatro marotas na mesma, sendo levado por elas para a Ala Hospitalar assim que pisaram no castelo.
O jantar passou rapidamente e antes que sentissem o tempo passar, elas já se encontravam no Salão Comunal, passando o tempo com Cold até sentirem sono.
Em um ponto da noite Trianna levantou-se e declarou que possuía ronda para fazer e seguiu para fora da Comunal com o outro monitor da Grifinória, Jackson Hills.
Vivy deu um sorrisinho, acenou e piscou para o garoto loiro de olhos verdes, que acenou de volta com um sorrisinho pretensioso. Cold sentiu-se fechando os punhos involuntariamente quando viu a marota soltar alguns risinhos após o garoto ter deixado a sala.
- Bem – Cold começou, o tom de voz mais áspero do que esperava, limpou a garganta disfarçadamente antes de continuar – Vocês tiveram notícias da Mery recentemente?
- Ela me mandou uma carta antes de ontem, mas parecia meio… Estranha. – Heloísa comentou, pensativa – A pontas até disse que tinha uma surpresa pras marotas na King Cross, mas não vi nada de mais por lá…
- Por isso que vocês duas só chegaram ao ultimo minuto? – Anne perguntou, no que as meias-irmãs responderam com um aceno de cabeça.
A conversa prosseguiu com as especulações sobre o que seria a tal surpresa da marota ruiva, finalizando apenas quando Trianna retornou da ronda, uma hora depois.
O som de bicadas no vidro da janela mais próxima a elas chamou-lhes a atenção e o grupinho se deparou com Walt, “o coruja” temperamental de Math.
Anne correu para abrir a janela e a ave deixou um pergaminho nas mãos da pequena marota, antes de sair voando por onde veio.
Abriram a entrega e as marotas se amontoaram para poder ler, todas ao mesmo tempo, tratava-se de um curto bilhete.
Queridas Marotas,
Devido à problemas técnicos agora a surpresa de vocês está no dormitório. Hehe.
Parem de enrolar na comunal e subam logo pra ver, oras.
Pontas.
As quatro se entreolharam, como Mery sabia que elas ainda não haviam ido para o dormitório?
Estranho.
Mesmo assim, elas logo correram escada à cima, na direção do cômodo indicado.
- Finalmente, ein? – elas ouviram uma voz conhecida falar, assim que abriram a porta do lugar.
E assim, bem no meio do quarto, encontrava-se Meryam, de braços cruzados enquanto batia de leve o pé, em uma clara demonstração de impaciência.
- Ué, cadê as comemorações? – Meryam retomou a fala, ao notar que suas amigas continuaram mudas, paradas e lhe encarando como se ela fosse uma espécie de fantasma – Sério, eu esperava por uma reação bem mais animad-
Meryam foi impedida de continuar a sua fala por uma Heloísa muito alterada, que pulara em cima da amiga ao som de gritos de “PONTAS” e “AI-MEU-MERLIN CÊ TÁ AQUI MESMO”. Não é preciso dizer que as outras marotas pareceram gostar da ideia da amiga morena e pularam em cima da ruiva.
E todas foram parar no chão em uma confusão de pernas, braços, cabelos, abraços, gritos de “NÃO CREIO” vindos de uma Vivianne feliz e “É HOJE QUE EU MORRO” vindos de uma Meryam sem ar. Foram longos minutos até que elas pudessem se separar completamente, e Meryam conseguisse respirar novamente.
- Céus, suas gordas. Se a intenção era me matar era só me avisar que eu ficava por Beauxbatons mesmo. – ela reclamou, fazendo cena.
- Dramática. – Trianna falou, revirando os olhos. Ao seu lado, Anne encarava a amiga ruiva com uma expressão pensativa. – Ann? O que aconteceu?
- Desculpe, mas… É impressão minha ou eu estou mais alta que a Mery? – a loirinha perguntou, parecendo genuinamente confusa. Afinal, não era todo dia em que ela descobria ser mais alta que alguém além de primeiro e secundaristas.
- É VERDADE! – Heloísa, discreta como sempre, gritou, no que Vivy deu um salto para longe no susto. – Você tá mais baixa que a Rabs. Eu não sabia que isso era fisicamente possível!
- E desde quando você sabe sobre física, Abanada? – Trinny perguntou, com uma sobrancelha erguida em troça e a amiga lhe mostrou a língua em resposta. E assim a noite prosseguiu, em meio à risada, histórias, fofocas e presentes que a marota ruiva trouxe da França.
(…)
- … E sabe o Hendrik que te falei? Ele é sua alma gêmea Abanada, sério…
- Ah, agora eu tô com o Luís…
- … E desde quando tu é fiel?
- … E quem diabos é Luís?
- Meu primo.
- Certo, começa do começo. – Não caros leitores, elas ainda não pararam de fofocar desde o dia anterior, e por essa hora já deviam estar no Salão Principal terminando o café da manhã e correndo para uma aula super chata de transfiguração… Mas deram um jeito de encontrar o caminho mais difícil e longo entre as escadas e corredores a fim de terem mais tempo para conversar, afinal foram o que, um ano de tragédias mal sucedidas e babados extra curriculares?
- Ora, ora, ora, agora sei o porque desse ar fétido nos corredores, a ruiva ridícula voltou para nos azucrinar! – Falava Hadley van der Linden na sua melhor pose de “só-estou-encarando-vocês-porque-tenho-guarda-costas”, ou pelo menos foi isso que as marotas conseguiram analisar depois de ver as duas valentonas que estavam acompanhadas dela.
- Ora, ora, ora, vejo que seu cabelo cresceu, pena que continua tão ruim como antes. Já tentou algum método trouxa de alisamento? Ouvi dizer que pior que tá não fica.
- Além de tudo ainda é amante dos trouxas, só o que me faltava. Tenho nojo de vocês, marmotas.
- É MA-RO-TAS! Aprende a falar antes de vir dar uma de sabe-tudo, ok? – Incitava uma dramática Heloísa já indo pra frente de todas e arregaçando as mangas… Literalmente.
- Epa, epa! O que está acontecendo aqui? – Perguntava um garoto alto e moreno ostentando um prateado distintivo de monitor indo em direção à patricinha e suas guarda-costas.
- Nada querido Diego, nada. Não sabe que eu sou um poço de paciência e delicadeza? Somente essas medíocres amantes dos trouxas que estavam tentando argumentar comigo, uma bruxa puro sangue, vê se pode!
- Hadley van der Linden, você acaba de perder 10 pontos para sua casa por desrespeito e falta de vergonha na cara, agora siga para o Salão Principal. – Ele dizia com tamanha autoridade que era difícil acreditar que fizesse o mesmo ano que as outras e estas receberam seu mandato com reações de ódio e resmungos que duraram todo o caminho até o Salão Principal. – Agora, vocês! – Ele disse, virando-se para as marotas com um indescritível sorriso nos lábios.
- Certo Diego, eu odeio sonserinos mas acho que sou daltônica e estou te vendo meio avermelhado hoje, por isso vou ser educada contigo, falou? – Heloísa disse com um jeito meio malandro que aprendera nas férias com sabe-merlin-quem, o que provocou algumas risadas um tanto exageradas. – Qual foi?
- Quem é o nosso herói verde aqui? – A ruiva perguntou, erguendo uma sobrancelha sem entender muita coisa.
- AAAAH, esquecemos do principal. Ruiva, se senta. – Vivianne falou, finalmente se pronunciando, afinal, estivera ocupada demais tentando ensinar Trianna a usar o novo esmalte-bruxo-que-pinta-sozinho; aparentemente ele não gostara das unhas da morena.
- Mas… o que?
- Mery, esse é meu namorado, Diego Leonhart. – Anne falou, ficando na ponta dos pequeninos pés e dando um beijo na bochecha do garoto.
- HAHAHA, vocês são ilárias. Sério, quem é esse?
- Mery…
- É sério.
- NÃO.
- SIM.
- Certo. (…) Jura juradinho que é verdade?
- Juramos juradinho, Mery.
- HAHAHA, quase me pegaram ein. Agora vamos logo que estamos atrasadas…
- Mery! É sério. Óh mor, conta pra ela.
- Senhorita Evans, eu namoro com a pequena Browning aqui, e eu a amo demais… Meryam?
- Eu acho que ela está um tanto pálida…
- GENTE SEGURA ESSA RUIVA!
(…) Preciso dizer que elas não assistiram a maldita aula de transfiguração?
- Eu preciso mesmo ficar nessa maca?
- Cala a boca que a gente tá ganhando comida de graça.
- Ôh Helô, se você não percebeu, a gente “ganha comida de graça” em outros lugares adequados do castelo, não precisamos ficar na ala hospitalar fingindo que a Mery teve mais do que uma indisposição…
- Monitoras, tsc. – Heloísa respondeu com ar de desdém enquanto mexia nos medicamentos do armário.
- E você sabe que não pode mexer ai, não sabe?
- Ah pera lá, tô só renovando o estoque.
- (…) E foi assim que eu comecei a namorar com o Diego, ele é um amor, não é? – Explicava Anne para Meryam e Vivianne que escutava a história pela décima quinta vez e ainda não se cansara, mulheres!
- Rápido, escuto barulhos. Vem gente ai. – Sussurrou Trianna o que fez com que Heloísa viesse correndo e se juntasse a elas, juntas puxaram as cortinas ao redor da maca e ficaram em profundo silêncio. Não faziam ideia de quem vinha lá, mas escutar conversa alheia pode ser sempre interessante.
- Eu já disse que eu tô bem caras, não precisa, sér… BRUUUUUUR – Aquela era a voz arranhada do sonserino Josh seguida de um estranho som de algo sendo expelido garganta à fora? Sim, era.
- Josh se senta ai e cala a boca. – Dizia um Cold um tanto estressado, mas que no fundo no fundo estava gostando de ver o “colega” assim.
- Mas o que aconteceu mesmo?
- Um novato qualquer resolveu testar o feitiço cara-de-lesma com nosso amigo aqui.
- Um novato qualq… BRUUUUUR… da grifinória, aposto.
- Sua cara tá da cor de pudim de kiwi em banho-maria…
- MAAAAATH! – Gritou Heloísa correndo a 300 km/h e pulando no pescoço do amigo antes que os outros pudessem definir o que era aquela mancha vermelha voando entre as macas.
- Ei, você! Senti sua falta. – Falou o então Math com uma voz totalmente mudada, 10 cm a mais e cabelos intensamente loiros e sedosos.
- Você cuidou bem do Frederic? – Ela perguntou em tom ameaçador enquanto soltava o pescoço do garoto e colocava as mãos na cintura.
- Cuidei.
- Então senti sua falta também! – Ela gritou se agarrando agora ao abdômen do garoto e virando o mesmo em direção ao restante das marotas. – Vem Vivy, ele tá bom de apertar agora.
- Opa.
- Eu ainda quero ele vivo ein marotas! – Gritava a ruiva, rindo, sem aparentemente ligar para o estado do pobre enfermo…
- Foram você… BRUUUUR… suas traid… BRUUUUUR… você não devia… BRUUR… estar aqui…
- Nós o quê? - A ruiva indagou, totalmente disposta agora enquanto ia em direção a Josh e ficava agachada em fronte a este, aparentemente sem nojo algum ante aos baldes de lesma que estavam entre os dois. – Você está insinuando que eu e a abanada aqui perdemos nossa madrugada e 3 sicles chantageando um pobre novato a praticar feitiços ilícitos contra sonserinos porque agora não podemos mais fazê-los porque nossa melhor amiga é monitora? Hm… Não sei, tenho minhas dúvidas. O que você acha? – Perguntou virando-se para Heloísa que também estava em “pose de guerra”.
- Tô achando que esse sonserino tá muito pretensioso… E infelizmente para ele o antídoto para esse feitiço está em falta. – Respondeu apontando para um armário totalmente aberto e bagunçado.
- Ok, acho que não devia ter dito a elas sobre as cartas que recebi nas férias… – Vivianne disse, arrependida.
- Calma, em que momento essas duas doidas planejaram tudo isso?
- AHA, sabia que tinha escutado sons estranhos na comunal. Mas pensei que fossem apenas os fantasmas usuais… – Anne comentou, dando de ombros.
(…) Muita discussão depois…
- OMG, EU AINDA ESTOU AQUI? ESTOU PERDENDO A AULA DE RUNAS? É ISSO MESMO? – Gritava uma aluada em desespero, já puxando sua mochila e pulando por cima da maca (sabe-Merlin-porque) e correndo corredor à fora para não ser vista até a hora do almoço.
- (…) Ok Josh, engole logo isso antes que eu me arrependa. – Dizia Heloísa empurrando 3 pequenos comprimidos na mão de um garoto tão verde que podia facilmente ser confundido com uma planta-musgo-zumbi.
- Você fez a coisa certa Helô. – Dizia Math numa voz extremamente sedutora, o que ainda não foi o suficiente para convencê-la disso.
- Chantagear ela com uma nova batedeira mágica Alladin 3000 foi sacanagem. – Exclamava Meryam de braços cruzados, enquanto revirava os olhos e pulava em cima de outra maca.
A ala hospitalar já estava vazia por essa hora, os amigos sonserinos de Josh foram embora logo, alegando que não seria bom para a reputação deles serem vistos com aquele tipo de “gente”; Cold chamara Vivianne para andarem por ai e saírem daquele “clima pesado”, mas tudo o que ele queria mesmo era saber dessas tais cartas durante as férias e uma chance de admirar a mais bela e refinada grifinória de todos os tempos (a seus olhos, claro); e Anne, bem, Anne fugira assim que se lembrou que seu amado Leonhart teria horário livre aquela manhã. E os outros por lá ficaram, devaneando sobre as férias, escutando resmungos de um sonserino moribundo, bagunçando lençóis de macas recém-postos… até que deu meio-dia e o primeiro estômago roncou.
- Hora de tirar barriga da miséria, let’s go meu povo. – E assim os gêmeos e a doida varrida deixaram a ala hospitalar, caminhando alegremente com sorrisos estampados na cara até que…
- Andrew, Joseph! – Exclamou Mathew que por um segundo esquecera a gravidade da situação…
- SEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEPH! – Gritava a ruiva se atracando no pescoço do cara-mais-desejado-do-castelo.
- Lembra quando ela tinha ódio de demonstrações de afeto em público? Bons tempos. – “Nostalgiou” Math, dando de ombros.
- Ah e, er, oi Andrew. – Falou num tom a menos enquanto escorregava do pescoço de Seph e se virava para o seu primeiro ex-namorado e forçava um sorriso que nem ela entendia porque não queria sair. – Como vai?
- Muito bem, obrigado. – Ele respondeu entre dentes. – E você?
- Bem, como sempre.
- É, algumas coisas nunca mudam.
- Andy, eu…
- Vamos todos almoçar, então? – O garoto indagou levantando o olhar para os outros e ignorando completamente a ruiva a sua frente.
- É Mery, outras coisas mudam, e bastante. – Heloísa disse, filosoficamente, ao ouvido da amiga, enquanto tentava fazê-la sair do lugar e seguir os garotos que já estavam na metade da escada que seguia para o Salão.
Meryam passou o resto do caminho meio perdida em pensamentos. A atitude evasiva que recebera de Andrew era algo que ela esperava, era até mesmo lógico, afinal de contas ela o dispensara há pouco mais de um ano já.
No fundo, a ruiva tinha uma ponta de esperança de que as coisas não fossem ser tão estranhas como ela notou que seriam, de que a essa altura ele já tivesse deixado pra lá o passado que tiveram e a tratasse como uma antiga amiga.
Bem, claramente isso não iria acontecer.
Tudo o que ela poderia fazer agora é se contentar com isso, afinal.
Subitamente a ruiva deu um rápido tapa na própria face, obrigando-se a parar de pensar em tudo aquilo e… Fazendo Heloísa olhá-la confusa e assustada. Meryam não pôde deixar de rir ante o susto da morena, antes de finalmente entrar no grande salão e se apressar em direção à mesa.
Abanadinha continuou encarando Meryam por mais alguns segundos, tentando descobrir o que dera na amiga pra se estapear assim do nada, mas por fim decidiu que o melhor a fazer era deixar pra lá.
- Gente louca. – a morena murmurou dando de ombros, como se aquilo acusasse e justificasse as ações da amiga, para em seguida também apressar-se para a mesa da casa vermelha. Não ia arriscar ficar sem comida, não é mesmo?
Friday 6th January
Conto nº 12

Como definir um verão sem os gêmeos mais pops do pedaço?
Lento, tedioso e sem grandes emoções. As marotas, com exceção da ruiva, se reuniram poucas vezes e nesses poucos encontros o único tema de conversação era: “como sobreviver sem os gêmeos?”. E assim o tempo passou, com um clima um tanto depressivo e desanimador. Sim, já pode ser declarado estado de calamidade pública quando quatro garotas como elas passam as férias debaixo de edredons e enfurnadas em livros; ou ainda quando passam mais de uma semana sem pintar as unhas e sem deliberar sobre um universo paralelo com unicórnios e dragões vivendo pacificamente.
Felizmente, assim como vieram, as férias se foram.
E quando deram por si já estavam todos se apertando numa cabine novamente, todos exceto Heloísa, que Vivianne insistia que não vira desde que atravessaram a estação 9 3/4.
- É, agora que estamos indo para o quarto ano fica a questão: como será sem a Meryam?
- E sem o Math?
- Temos que parar de pensar nisso, marotas. Vamos ter muito muitos livros e trabalhos para ocupar a mente…
- Ah Aluada, nem começa!
- Então, como estou? – Falava Heloísa, parando na porta da cabine ainda aberta e fazendo uma pose estilo “piriguete-do-pedaço”. Ela ostentava uma peruca vermelha fosforescente que não combinava nem um pouco com seus intensos olhos negros.
- Que diabos é isso, Abanada?
- Ah, só achei que um pouco de vermelho deixaria vocês felizes, sabe como é… – Falava e já tentava achar um lugar entre Cold e Andrew, que não paravam de olhar assustados para sua peruca.
- Abanada, se você não percebeu a nossa casa é bem vermelha…
- É… e nossas capas também! E a comunal inteira…
- VOCÊS SABEM DE QUE VERMELHO EU TÔ FALANDO, QUIETAS. – Dizia erguendo uma mão, visualmente ofendida. Então suspirou profundamente antes de recomeçar a falar: - Então marotas, prontas pra o 4º ano? Estava pensando, bem que a McGonagall poderia marcar logo o final de semana em Hogsmeade, quero ver o Filch. E além disso já preparei uma série de coisas para fazermos no tempo livre… e no não-livre também.
- Abanada… Você sabe que você não é a Pontas, não sabe? – Perguntava Vivianne, colocando uma mão no joelho da meia-irmã, como se a mesma estivesse num tipo de surto psicótico, o que de fato poderia ser verdade.
- E esse é o momento que vocês podem fingir que nada está acontecendo e sorrirem e concordarem como fariam com a Meryam!
- Ah, sim, sim, claro…
- Sabe Abanada, pelo que entendo de psicologia acho que isso não é bom pra você…
- AFF! Que seja. Eu só queria deixá-los felizes…
- Você nos deixa feliz por ser quem é, Helô. Não precisa mudar nada! – Disse Joseph, com um sorriso encantador, enquanto se erguia e tirava a peruca da cabeça da amiga, ajeitando os cabelos da mesma em seguida – o que provocou alguns “aawn!” um tanto exagerados.
- Isso mesmo, o Jose tá certo! – “como sempre”, completou em pensamento a Aluada.
- Mas isso não muda o fato de que a Meryam e o Math não estão conosco aqui hoje… E que mal temos idéia de quando os veremos novamente. – Falou Andrew num tom de voz, triste e saudoso que deixou os outros completamente incapazes de responder.
E assim foi a longa viagem até Hogwarts… Quieta e sem risadas; com breves murmurinhos aqui e ali sobre troca e venda de cartões de sapos de chocolates, nada demais.
[…]
E mais uma vez o tempo passou, tão sem emoções que o simples levantar da cama para ter um dia normal como todos os outros já era algo doloroso. Mas agora uma certa emoção comum os reunia, estava chegando o tão almejado final de semana em Hogsmeade, exatamente dois meses após o início das aulas. Porém, tamanha ansiedade duraria pouco; na semana que antecedia a ida à vila mágica uma estranha tempestade assolara o local e devido aos raios, muitas cabanas da vila ficaram totalmente carbonizadas e alguns animais da floresta proibida foram encontrados mortos pelo guardião do castelo. Isso bastou para que a preocupada diretora Minerva McGonagall anulasse a ida dos alunos, o que trouxe revolta e murmurinhos mal-educados ao jantar daquela noite, fazendo muitos alunos voltassem antecipadamente às suas comunais, se recusando a continuar no Salão Principal.
Somente as marotas pareceram não se abalar, pois dessa vez elas tinham um plano B. Executá-lo sem a Meryam para tomar a dianteira talvez não fosse tão fácil, nem tão legal, mas elas tentariam mesmo assim.
Quando chegaram à comunal aquela noite restava apenas um pequeno grupo de alunos que tentava inutilmente planejar algo legal para aquele final de semana e não deu outra, logo as marotas puseram-se a falar. Para tal subiram num velho sofá de couro vermelho, alto o suficiente para que todos os vissem.
- Quem aqui quer ir a Hogsmeade amanhã? – Gritou Trianna por cima dos murmúrios dos alunos, com um braço levantado, chamando atenção para si.
- Mas a McGonagall disse…
- Não podemos ir!
- É, as chuvas… a entrada deve estar toda enlameada. E eu não estou a fim de me sujar.
- Ah, francamente! Vocês são grifinórios ou não? – Exclamava Heloísa exasperada.
- Claro que somos, mas isso não significa que somos fugitivos… – Dizia o temeroso Spencer, um garoto desajeitado com óculos fundo-de-garrafa.
- É, concordo. – Disse uma garota ruiva também esquisita jogada a um canto da comunal.
- Ah, vocês são um bando de chatos. – Disse Vivianne, pulando de cima do sofá e pondo-se a lixar as unhas, coisa que fazia constantemente.
- Vamos lá pessoal, nós precisamos de diversão não é mesmo… E já faz o quê? Quatro meses que não vamos lá? E se não formos agora talvez só possamos ir daqui a um mês… E, e a Zonko’s está com carregamentos novos… – Quem falava era Anne, vacilante, aparentemente propondo algo horrível demais, mas que ainda assim precisava ser feito.
- E como é que vocês pretendem fazer isso? – Quem falara era outro aluno, quintanista, que vinha agora descendo as escadas do dormitório masculino. Ostentava um sorriso brilhante e sedutor, que parecia combinar perfeitamente com seu cabelo loiro e bagunçado. Vestia uma regata cinza justíssima e uma calça de moletom trouxa que fazia os neurônios de Heloísa fumaçarem de tanto pensar como um garoto de 16 anos poderia ter músculos tão bem definidos.
- Ah meu amor, como vamos fazer eu não sei, mas se você for eu garanto que chegamos a Hogsmeade nem que seja pilotando Nimbus 2000! – Falou Heloísa, num tom estranhamente vago e perdido, fazendo os outros rirem à menção da vassoura que era uma das mais antigas e desemparelhadas a que tinham acesso nas aulas de voo.
- Aparentemente se você for, Luís, fará mais de uma marota feliz. Então, está conosco? Se sim, é só nos esperar às 9 horas da manhã, no quinto andar, perto de uma das salas vazias. – Quem falara era Trianna, e como ela sabia o nome daquele loiro as outras não faziam ideia, só o que se sabe é que ele retribuiu o sorriso da marota e piscou levemente, enquanto se sentava em um sofá e se punha a falar com alguns garotos que ali estavam.
[…]
No dia seguinte as marotas chegaram na hora marcada no local dito, seguidas por Andrew e Cold que se mostraram muito interessados em descobrir como as marotas davam suas fugidas por vezes semanais. Poucos minutos depois chegou um pequeno grupo de cinco pessoas, liderados pelo tal Luís que parecia ter convencido dois garotos quartanistas que estavam na comunal na noite passada e duas outras garotas um tanto apreensivas.
- Por precaução pedimos que vocês coloquem essas vendas… – Dizia Trianna, que com a ausência de Meryam se tornara a mandona do grupo em questões marotas. Vivianne e Heloísa passavam as vendas para cada um, enquanto Anne discursava o porquê de não poder mostrar onde ficava a passagem secreta para os corvinos.
Logo depois as marotas os fizeram andar em círculos e entrar e sair de várias salas para despistá-los, e só então entraram numa velha sala empoeirada, que quase não se dava pra ver devido a uma grande armadura que ficava logo a sua frente. Se estivessem sem vendas descobririam que não estavam em uma sala normal, mas sim num velho armário de vassouras, que não ostentava uma única vassoura inteira para contar a história. As marotas trataram logo de afastar um imenso quadro que ficava em uma das quatros paredes e que funcionava como porta; o quadro mostrava a cena de um jogo de quadribol entre lufa-lufa e corvinal e seus jogadores pareciam estar bastante chateados por terem sido empurrados contra a parede escura e mofada.
Na parede onde há poucos instantes estava o grande e velho quadro agora havia uma passagem circular, de mais ou menos um metro de diâmetro que dava num cubículo de 8m². As marotas fizeram os outros entrarem no lugar e em seguida, com o auxílio da varinha, repuseram o quadro no lugar.
- Lumus! – Disse Trianna agitando a própria varinha frente ao breu que ficou aquele cubículo. Sim, era um cubículo, nada mais. Um cubículo com uma estranha saída lateral que parecia mais com uma rampa… – Podem tirar as vendas.
- Quem quer ser o primeiro? – Falou Vivianne animada, indo em direção a estranha saída lateral.
- O quê? Onde estamos? Eu estou com falta de ar… – Falava uma das garotas, num tom um tanto dramático.
- Como vocês descobriram esse lugar? – Perguntava Cold interessadíssimo, analisando até as pedras do lugar.
- Eu vou primeiro, é só fazerem o que eu faço, ok? – Disse Vivianne, e então se sentou na borda da saída lateral e deu um breve ‘tchauzinho’ antes de escorregar para a completa escuridão.
- Temos mesmo que fazer isso? – Perguntou um quartanista, sem saber se aquilo era seguro.
- Você chegou até aqui então acho bom você seguir em frente. – Disse Heloísa em tom ameaçador.
- Isso, isso mesmo! Nunca ouviu falar do que nós, marotas, somos capazes? – Falou Anne, meio indecisa se deveria falar num tom ameaçador como o da Abanada ou num tom vacilante e temeroso. Ela, aparentemente, decidira ser mais disposta à marotices com a saída da Meryam.
E assim, um por um, eles desceram a rampa. Heloísa fora a última a sair e aproveitar aquela viagem. Sim, era uma viagem. Uma viagem de cerca de 6 minutos, onde eles pareciam sempre escorregar por um túnel, que muitas vezes fazia curvas perigosas e em certos momentos parecia subir alguma elevação para então descer ladeiras quase completamente retas. Graças à magia imposta ali, e que só Merlin sabe como, a velocidade das pessoas ao descerem se mantinha sempre a mesma, e elas pareciam ilesas de todo e qualquer perigo, até chegar ao destino final: Uma clareira. Uma clareira que ficava por trás do Cabeça de Javali, já na saída de Hogsmeade.
Luís, que chegara pouco antes que Heloísa, ainda estava à beira do estranho buraco que se abrira na grama para a passagem dos garotos quando esta, ainda tonta, caiu por cima dele exibindo um sorriso bobo e uma cabeleira um tanto descabelada.
- Eita, eita, calma marota! Olha por onde anda… – Disse o loiro, rindo, segurando a morena e pondo-a de pé. Em seguida levou a mão aos cabelos da mesma e os colocou atrás da orelha, fazendo com que ela ficasse estranhamente calada, apenas piscando apressadamente enquanto o observava com admiração.
- Certo, podemos ir agora? – Perguntou Trianna lançando um olhar de esguelha para seu primo (sim, seu primo) Luís e pondo-se a andar em direção à vila, sendo seguida rapidamente pelas garotas terceiranistas que ainda tremiam e murmuravam coisas como: “nunca devíamos ter vindo”, “vamos ser expulsas!” e “onde estávamos com a cabeça quando nos metemos com essas loucas?”.
Mal se passaram cinco minutos e todos já estavam apertados dentro de um único corredor da Zonko’s onde se lia: Explosivos, cuidado.
- A troco de quê estamos aqui mesmo? – Perguntava um Cold um tanto assustado, tão ereto que parecia ser incapaz de respirar normalmente.
- Ora Coldzinho, só para um pouco de diversão! – Disse Vivianne, que já lançava um olhar astuto para Anne que no mesmo segundo entendeu seu recado e murmurou: - Bombarda.
E não se passou um segundo até que os cuidadosamente guardados explosivos da terceira prateleira começassem a explodir, um a um, revelando um misto de cores e zunidos que se torna impossível descrever. E no segundo seguinte já era possível escutar o grito alucinado do dono da loja: MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAROTAS!
- Finite, finite! – Gritava Trianna apontando para a prateleira que parara de tremer e voltara ao seu estado normal, exceto pelos muito utensílios que haviam “evaporado”.
- EU JÁ NÃO DISSE QUE VOCÊS NÃO PODEM FAZER ISSO? – Berrava o atarracado senhor Sparks, com os punhos cerrados e uma feição nada convidativa.
- Mas a culpa foi toda dele, senhor Sparks. – Disse Heloísa com a cara mais lavada possível apontando nada-discretamente para a pessoa que estava ao seu lado, que não por mero acaso era o recém-conhecido Luís. Felizmente o Luís era bem-humorado a ponto de aceitar toda aquela brincadeira.
- É senhor Sparks, me desculpe, prometo não fazer de novo, estava só testando um novo feitiço, sabe como é…
- Vou acrescentar isso na lista de vocês, MAROTAS! – Brandia o senhor Sparks, totalmente indiferente ao pedido de desculpas do loiro, dando às costas a todos e voltando ao seu lugar no caixa da loja.
- Sempre tão simpático!
- Eu adoro quando as orelhas dele ficam vermelhas… – Foi o único comentário de Anne, e também o estopim de todas as risadas que se seguiram. Cold ainda estava vivo, foi o que se pode concluir após uma exagerada análise vital feita por ele mesmo após toda aquela amigável explosão. As “patricinhas-vermelhas”, como viriam a ser chamadas pelas marotas, já começavam a se divertir, mas ainda assim tomavam o imenso cuidado de não se sujarem com nada nem de chegar muito perto das próprias marotas, afinal, elas eram perigosas. E os garotos grifinórios já estavam num papo um tanto animado com estas; exceto por Luís e Heloísa, que pareciam imersos em um único mundo inalcançável.
Depois de pouco mais de duas horas transcorridas dentro da própria Zonko’s todos já começavam a se corroer de fome e a sentir falta do acalorado almoço do Salão Principal. Mas ainda não era hora de voltar, não tão cedo…
- O que acham de um almoço à base de Dedos de Mel e Três Vassouras? – Sugeria Vivianne, toda sorridente.
- Por mim tudo bem…
- É, pode ser!
- Vamos lá então?
- Espera…! Cadê o Andy? – Indagava Anne já com uma feição preocupada, ainda observando todo o grupo na ponta dos pés.
- Deve ter se perdido lá na sessão de quadrinhos mágicos!
- É, bem provável.
- Eu acho que devíamos procura-lo antes de ir…
- Ok, ok, eu, você e o Cold vamos procura-lo, o resto de vocês: Esperem aqui. – Falava Trianna já na sua atual pose de chefe, saindo na frente e percorrendo todo o caminho que tinham feito há pouco, só que ao contrário.
Mal chegaram a sessão de quadrinhos mágicos, como predisseram, e lá encontraram Andrew, conversando animadamente com uma garota de cabelos-curtos e cacheados totalmente desconhecida. Andrew sorria. Sorria e falava em um tom calmo. Sorria, falava e gesticulava. Ok, aquilo era totalmente estranho (não o seria para Meryam, mas infelizmente ela não estava ali).
- É… Andy? – Perguntou Anne, dando um passo à frente e olhando pro amigo.
- Ah… sim! Oi, vocês. – Respondeu e rapidamente perdeu toda aquela animação, voltando a ser o simples Andrew de sempre.
Cold encarou o garoto com uma sobrancelha levantada, como se houvesse pegado o moreno em flagrante ao mesmo tempo em que as duas marotas se entreolharam meio assustadas.
- Hm, você pode nos dar licença por um momento? – perguntaram em uníssono, já puxando o corvino pelo braço e arrastando-o até outro corredor da loja.
- Andy, eu sei que pode ser meio chato de perguntar e tudo mais, mas… – começou Anne, parecendo meio indecisa sobre se meter na vida do garoto ou não.
- Você pirou de vez? - Trianna perguntou ameaçadora, encurralando o garoto na prateleira sem piedade – Tava flertando descaradamente com aquela lá! E a Mery, como fica nessa história?
Certo, talvez aquele não tenha sido a forma ou a pergunta mais correta a se fazer naquela hora, porquê, pasmem e fujam pras colinas, Andrew franziu as sobrancelhas e fez uma expressão de pura irritação.
- Olha aqui, Trianna, eu posso ser um cara bem calmo, adorar vocês e tudo mais, mas isso não te dá o direito de ficar me acusando do nada assim. – ele começou, e a marota certinha fez menção de retrucar, mas foi interrompida quando o corvino retomou o discurso – E, só para a sua informação, eu posso flertar ou deixar de flertar com quem eu quiser, a Meryam terminou comigo na noite antes de ir embora.
E, com essas palavras, o garoto se desvencilhou das duas marotas e voltou para o local onde sua acompanhante lhe esperava, voltando então a sorrir, falar, gesticular e brincar com o cabelo da garota que o acompanhava…
As duas observaram a cena por mais alguns instantes, esperando que o garoto voltasse rindo para onde estavam e gritasse “Pegadinha do malandro! Er tudo BRINKS, galera!”, mas isto não aconteceu; e foi só quando Cold foi para perto delas, chamando-as de volta para esse mundo, que as duas resolveram voltar para perto do grupo que as esperava.
A ida para o Três Vassouras foi rápida já que ninguém queria ficar muito tempo ao ar livre naquela ventania congelante de final de outono. Trianna e Anne concordaram silenciosamente em não falar sobre o ocorrido para Heloísa, inconsequente como ela era, provavelmente a morena iria até Andrew tomar satisfações e iniciar uma discussão nem um pouco discreta com o corvino.
Ao entrar no pub eles começaram a se dispersar, os dois garotos e as duas garotas que Luís havia trazido consigo logo formaram casais e foram cada um aproveitar o resto da tarde em seus respectivos encontros e o próprio Luis não ficou para trás, chamando Heloísa para uma mesa nos fundos do estabelecimento com um sorriso que fez a morena se derreter enquanto pegava a mão dele e o seguia sem nem mesmo dar tchau para os restantes.
As três marotas restantes, junto de Cold, se sentaram numa mesa qualquer, próxima ao balcão de onde Madame Rosmerta acenou-lhes carinhosamente. O garoto rapidamente se dispôs a ir ao balcão e pedir quatro cervejas amanteigadas, mas para a sua total surpresa a dona do estabelecimento havia entrado para a cozinha e ele foi atendido por, nada mais nada menos que um quase irreconhecível ex-zelador da escola: Argus Filch.
Na realidade, Cold não iria reconhecer o homem a sua frente se não fosse pelos gritinhos de “FILCH, É VOCÊ MESMO?” somados aos acenos que as marotas lançaram à ele, chamando-o para onde elas estavam. O homem, no entanto, se limitou a acenar discretamente para elas – mostrando involuntariamente uma aliança dourada que decorava sua mão esquerda – e apressou-se a servir o loiro, que pegou as cervejas e se dirigiu à mesa das três com uma expressão de puro choque decorando seu rosto.
Expressão essa que só aumentou quando Madame Rosmerta saiu da cozinha e cumprimentou Filch com um carinhoso e rápido beijo nos lábios, sorrindo em seguida e começando a limpar o balcão com um pano. Era impossível negar o espanto generalizado que tal cena causou aos pobres estudantes.
- Óh, céus, só eu vou terminar sozinha nesse mundo! – Vivy exclamou randomicamente, virando sua cerveja amanteigada em seguida para poder expressar toda a sua amargura – a Aluada tem o Daniel, a Abanada tem o tal do Luís, a Mery tem os milhões de gatos franceses de Beauxbatons, o Filch tem a Madame Rosmerta, o Andy parece que já se acertou com aquela lá… Até a Anne já tá desencalhando e eu aqui! Um absurdo! – E já acenava para Filch atrás de outra caneca de cerveja.
- Peraí, você não tava com o Josh? – Cold perguntou, sem entender.
- E como assim eu to “desencalhando”? – perguntou Anne, confusa – Eu não me lembro de ter ficado encalhada em nada ultimamente!
- Aham, vai dizer então que você não anda tendo encontros furtivos com o tal do Diego Loenarth.
- Leonhart – a pequena loira corrigiu – Mas, o que o Diego tem haver com encalhamento? Você acha que nós ficamos presos em algum lugar?
Trianna deu um sorriso diante da inocência da amiga pequena, mas Vivy não pareceu se dar por satisfeita.
- Sim, mas você anda se encontrando com o garoto na biblioteca que eu vi – a marota declarou, um brilho malicioso enfeitando os olhos azuis enquanto dava boas goladas de sua recém-cheia caneca de cerveja.
- Ahn? Isso é porque o professor de poções disse para ele me ajudar na matéria… – explicou Anne, sem entender.
- Sei, aula de poções…
- É, por que? Você também quer algumas? Eu posso pedir para ele te ensinar também…
Almofadinhas pareceu murchar por um segundo diante de tamanha inocência e certa cegueira da amiga loira. Cold deu dois tapinhas de consolação no ombro dela, tentando passar forças e aparentemente ainda preso na pergunta sobre o Josh.
- Anne, a Vivianne está insinuando que você e o Diego estão em um clima de flerte e mais que amizade durante as aulas extras que ele está te dando, por isso ela está visualmente ofendida quanto a sua inocência e falta de entendimento para com suas piadas de duplo sentido o que está gerando uma certa depressão na mesma julgando que irá ficar sozinha eternamente e sem entender porque você não toma uma atitude logo e joga o Leonhart contra a parede, é isso. – Trianna finalmente explicou, com todas as letras para que a menor entendesse claramente, do contrário aquele diálogo confuso iria longe e ela não tinha paciência para tal.
Mas o que assustou os outros presentes da mesa não foi a intensa explicação da Aluada, foi a reação da Rabicha para com esta. Ela corou furiosamente e pareceu ser incapaz de falar por alguns segundos enquanto encarava a madeira velha e encardida daquela mesa de pub.
- Ah – foi tudo o que deixou a boca de uma Rabicha extremamente vermelha – Vocês acham mesmo? – ela perguntou esperançosa, um tempo depois.
Vivianne, Cold e Trianna olharam para a menor com os olhos arregalados até a sua terceira geração, as bocas abertas num cômico “O”.
- SÉRIO!? VOCÊ TÁ AFIM D- – mas Almofadinhas não pôde completar o grito, pois no segundo seguinte Anne havia, literalmente, pulado por cima da mesa e tapado a boca da outra, numa tentativa de não ter seu segredo espelhado para todos os cantos de Hogsmead.
Claro que a expressão de espanto dos outros dois só aumentou. E claro que Heloísa foi capaz de escutar tudo do outro lado do pub e vir correndo de lá com uma expressão curiosa enfeitando o rosto. Aparentemente, a conversa – ou agarração, o que você preferir – com Luis não fora suficiente para manter a morena longe de sua natureza curiosa.
- Quem tá afim de quem? – A recém chegada questionou, olhando em volta, ávida por uma resposta.
- A Anne – começou Cold.
- Gosta do Diego – Vivy completou, risonha, enquanto se livrava das mãos de uma ainda mais vermelha Rabicha.
- SÉRIO?! – comemorou Abanadinha.
O dia em que Anne, a marota mais indiferente a garotos, começara a gostar de um deles deveria ser marcado como uma data histórica da sociedade bruxa. Onde é que havia deixado a agenda e a câmera, para que ela pudesse registrar o momento, mesmo?
- Você tá gostando do Diego Drummond, da Lufa-Lufa? – Ela perguntou, visualizando o veterano do sétimo ano, que tinha um certo charme latino proveniente de suas descendências lá pela América do sul.
- Não, - a pequena respondeu, com as sobrancelhas franzidas –, do Diego Leonhart, do nosso ano da Sonserina.
- Sonserina!? – foi a única coisa que a morena exclamou, antes de começar a ter espasmos e agarrar-se tão freneticamente a capa de Cold que fez o loiro gritar de dor ao ser potencialmente estrangulado.
- O que diabos você tem na cabeça, rabicha? – Perguntou Vivianne enquanto tentava acalmar a irmã e fazê-la se sentar.
- Eu… eu…
- Não liga Raby, ela não sabe o quanto um sonserino pode ser… bom. – Aluada falou, brindando sua caneca com a da loira e com um sorriso super malicioso nos lábios, que, obviamente, a outra não conseguira decifrar.
E assim os dias se passaram, com paixões surgindo, depressões vindo à tona e a rotina sendo esquecida pouco a pouco, afinal não podemos chorar a partida de alguém para sempre, temos que aprender a fazer a ausência desta valer a pena.
Tuesday 3rd January
CONTOS MAROTOS: para os potterheads e amantes da boa leitura.
“Porque não vale a pena viver num mundo sem magia”.
Thursday 29th December
Uma menina de 15 anos tem um filho de um ano nos braços. As pessoas chamam-na de vagabunda, mas ninguém sabe que ela foi violada aos 13. As pessoas chamam um outro de gordo, mas ninguém sabe que ele tem uma doença grave que causa sobrepeso. As pessoas chamam um velho de feio, mas ninguém sabe que quando houve uma guerra ele lutou pelo país. Publique isto se é contra o Bullying ou preconceito.
Wednesday 28th December
Conto nº 11

Desde o fatídico dia em que Meryam recebera a carta de sua mãe, avisando que ela e seu irmão iriam ser transferidos para Beauxbatons no ano seguinte, as marotas não pararam quietas por nenhum segundo, afinal, tinham que fazer aqueles últimos dias juntas valerem a pena:
Explodiram coisas…
Um barulho de explosão foi ouvido vindo do banheiro feminino do 2º andar, as cinco marotas saíram correndo do local enquanto tossiam e tentavam espalhar a fumaça para longe delas, um preocupado Cold que passava pelos arredores foi em direção às marotas, enquanto elas se escoravam em uma parede próxima ao banheiro, Math, seguiu seu amigo sem a mesma preocupação, mas era evidente que ele queria saber o que sua irmã e as amigas haviam aprontado.
- O que aconteceu com vocês?! – perguntou o Grifinório, quando finalmente as alcançou.
- Estavamos tentando fazer uma poção para colocar no suco da Van der Abusada, mas pelo visto não funcionou muito bem – explicou Heloísa, enquanto recuperava o fôlego.
- Isso porque você e a Pontas não sabem seguir as instruções da poção! – ralhou Aluada, enquanto tirava os restos de fuligem de seu rosto.
- Ah, o de sempre, então? – Math deduziu, no que as cinco concordaram com um aceno positivo.
… Implicaram com sonserinos…
- O que vamos fazer hoje? – Perguntou Cold, com uma expressão entediada.
- O mesmo que fazemos toda noite.- Vivy respondeu, sorrindo misteriosamente.
- Colar chiclete no cabelo da Van der Abusada ou bulinar o Josh? – sugeriu Heloísa, com um sorrisinho maldoso.
- Nadar com a Lula gigante? – foi a vez de Meryam falar alguma coisa.
- Fazer cócegas nos meninos? – Anne riu-se, batendo palmas pra ideia.
- Estudar? – Trianna falou, sendo instantaneamente coberta por cinco pares de olhos irritados – Certo! Não tá mais aqui quem falou.
- Que tal ficarmos só passando o tempo aqui? – sugeriu Josh, recebendo um tapa na nuca vindo de Heloísa – Ai, pra quê isso?
- Sonserino lá tem direito a opinião? – falou a morena, cruzando os braços e começando a discutir com o garoto revoltado.
- Bulinar o Josh, então. – comentou Meryam, e os demais deram de ombros.
… Mataram aula…
Segunda-feira de manhã, primeira aula: Adivinhação.
Não precisava ser médium para descobrir que as marotas com certeza NÃO se encontravam na sala de aula.
Quer dizer, ao menos três delas não se encontravam na sala de aula.
Ao invés disso, Meryam, Heloísa, Vivianne e Mathew estavam em uma roda no chão de uma sala vazia, havia um baralho entre eles e os quatro se analisavam seriamente…
Meryam abriu a boca para falar algo, quando a porta da sala foi aberta bruscamente por um casal de Sextanistas da Lufa-Lufa, que pareceram entretidos demais em seu agarramento para notar que a sala não estava vazia.
- Ca-ham – Math fingiu limpar a garganta, fazendo certo barulho para que os dois se desgrudassem e dessem de cara com os quatro terceiranistas os observando.
- Olha só, não é nada pessoal mas, cês tão atrapalhando um jogo importante aqui, viu? – Meryam falou, olhando-os com ums sobrancelha levantada.
- Ahn, foi mal, eu acho – o garoto respondeu, meio atordoado e puxando sua namorada para outro local.
- Voltando… – Começou Heloísa, virando-se novamente para sua mão – eu aposto um sapo de chocolate.
- Eu aceito e cubro a sua aposta e aumento para um sapo e duas varinhas de alcaçuz – respondeu Math – jogando as varinhas de alcaçuz e o sapo no centro da roda.
- Eu desisto – falou Vivy, baixando suas cartas enquanto fazia bico.
- Eu pago – Meryam persistiu, enquanto estudava os outros dois…
- Flush! – o loiro declarou, mostrando suas cartas.
- Sequencia Flush!
- Merda! – a ruiva reclamou, jogando as cartas no chão e cruzando os braços enquanto sua amiga morena puxava os doces todos para si.
- Mais uma vez? – Heloísa propôs, rindo maleficamente.
…Atrapalharam os estudos dos outros…
As marotas encontravam-se sentadas no chão do salão comunal as cabeças juntas enquanto formulavam alguma travessura para a próxima semana. Por se tratar desse assunto, é claro que se contava com a ausência de Trianna naquela roda, a morena preferira se acomodar em uma confortável poltrona em frente à lareira. Com um livro de feitiços do quarto ano no colo.
Era usual da garota isolar-se do mundo enquanto lia – principalmente se ela estava tentando se concentrar para absorver o conteúdo do livro – portanto ela nem mesmo chegou a escutar as incansáveis chamadas vindas de suas amigas, que queriam saber qual feitiço poderiam usar para conseguir deixar o chão das masmorras escorregadio.
Quando deu por si, um par de mãos havia tomado o livro de sua visão, e o lançou sem dó nem piedade na lareira.
- Aluada! – a ruiva chamou, parecendo revoltada – Pare de nos ignorar!
Tudo o que se pode ser dito sobre à hora seguinte é que boa parte do castelo se deparou com uma Meryam correndo como se a sua vida dependesse disto e sendo perseguida por uma Trianna possessa.
E, bem, nenhuma delas inventou de estudar mais o que quer que fosse naquele dia.
… Observaram as estrelas…
Era uma noite qualquer, onde as Marotas conseguiram reunir todos do grupo para uma “sessão de observação da constelação marota”.
As quatro haviam ficado mais que impressionadas quando Joseph havia lhes contado sobre a constelação que ele havia nomeado em suas homenagens. Ainda agora, meses depois, Meryam não conseguia vislumbrar o brilho avermelhado da estrela Pontas sem pular no pescoço do amigo e passar incontáveis minutos agradecendo-o.
… Implicaram mais um pouquinho com os Sonserinos…
Aquela seria mais uma bela manhã de primavera para todos no castelo, o sol brilhava, os jardins estavam floridos, a lula-gigante parecia de ótimo humor e nadava feliz no lago da escola.
Até as marotas pareciam felizes durante a ida para o café da manhã. Todas na mais perfeita harmonia.
Mas havia uma parte da população de Hogwarts que não gostou muito de uma surpresinha que os esperava para o café da manhã…
- AS BANDEIRAS DA SONSERINA ESTÃO ROSAS!
- E CHEIAS DE PURPURINA.
- COMO ASSIM?!
- QUEM FOI O HEREGE?!
- Merlin! Acho que vou desmaiar!
Foi entre vozes alteradas e assustadas vindas da mesa da Sonserina que as Marotas chegaram ao Salão Principal. Meryam teve até mesmo que desviar de uma garota Sonserina que havia desmaiado no chão de tanto desgosto.
As cinco pararam por um momento para analisar seu feito antes do café da manhã.
- Evans! Brenneisen um! Brenneisen dois! PARA A MINHA SALA, JÁ! – Gritou o Professor Henrich Kaldran, extremamente irritado e apontando para a saída.
Heloísa deu de ombros
- Valeu à pena.
- Ah, mas tinha ficado tão lindo! – Anne murmurou, ao ver o feitiço de cor que elas haviam posto nas bandeiras ser retirado pelos professores, e a bandeira Verde-Esmeralda com uma cobra em Prata tomou o lugar da Rosa-pink com uma cobra Rosa-escuro feita de gliter.
… E, claro, tiveram tantas detenções que não vale a pena comentar cada uma.
Mas, infelizmente a primavera começou a dar lugar ao verão e logo o fim do ano chegou.
O último dia do ano letivo em Hogwarts era sempre agitado e feliz, pois, como de costume, seria servido um banquete de despedida e todos os fervorosos alunos arrumariam seus malões para partirem no dia seguinte.
Porém dessa vez não seria tão simples… Nem tão feliz.
Mal acabara o último horário do dia, onde receberam as últimas notas que diziam se tinham ou não passado de ano e os alunos já estavam em pavorosa em suas respectivas comunais, fazendo debates, monólogos dramáticos e fofocas. Apenas algumas alunas estavam reunidas num dormitório abafado de começo de verão, e estas pareciam extremamente tristes ao observarem um malão aberto e bagunçado ao lado da janela.
Aquele não era só o último dia do ano letivo para as marotas. Aquele era o último dia em Hogwarts para uma delas.
- Bem, tenho que arrumar isso…
Meryam mal acabara de falar e as suas quatro melhores amigas, sempre prestativas, fizeram questão de “ajudar”: Aqui e ali tiravam uma peça de roupa dizendo que estava mal dobrada a fim de ficar por mais meia hora a dobrar aquela única peça. E assim o dia passou, com alguns poucos murmúrios, poucas palavras, poucas conclusões. Sim, elas se recusavam a acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Mas, infelizmente, a noite chegara. E com ela mais um berrador singelo que alegava numa voz calma: “Esteja com seu irmão daqui à uma hora nos portões de Hogwarts, não vou ficar esperando. Beijos, mamãe.”
- Você tem mesmo que ir, Pontas?
A marota não respondeu. A única coisa que fez foi dar um último abraço na pequenina Anne, que já se debulhava em lágrimas novamente. O grupinho antes barulhento e chamativo agora se encontrava mais melancólico que nunca, sentados no saguão de entrada enquanto dezenas de alunos corriam em direção ao Salão Principal onde seria servido o banquete.
- Vamos sentir sua falta cara, vamos sim. – Falava Cold, cumprimentando Math como os “manos” faziam e sorrindo fracamente. Math restringia-se a não falar, tudo que fazia era lamber seu terceiro pote de pudim que pegara mais cedo na cozinha. Joseph e Andrew fingiam conversar sobre algo extremamente importante, mas Andy não era tão convincente, de vez em quando olhava de esguelha para a ruiva e eles ficavam ali, por alguns segundos, olhando um ao outro, como se nada mais importasse. Josh, aparentemente o único a não se abalar com tudo aquilo, abraçava Vivianne, consolando-a. Trianna ocupava-se em perguntar a ruiva pela quarta vez se ela estava bem, se estava precisando de algo e se não esquecera nada. Heloísa caminhava entre todos (exceto Josh, do qual mantinha uma distância significativa) e tentava falar palavras de motivação; como não obteve muito sucesso, jogou-se ao lado de Math, sobre o malão do mesmo, e ficou abraçada com ele mais uma vez.
- Quem sabe eu não te mando uma torradeira no seu aniversário?
- Acho que aquele liquidi-alguma-coisa seria mais útil.
- Ok. Mas só se você chamá-lo de Frederic!
- Trato feito!
O tempo estava correndo rápido demais para o gosto de Meryam, faltavam pouco menos que meia-hora para ela ter que ir se encontrar com sua mãe nos portões do colégio, e a ruiva maldizia sua progenitora por nem mesmo deixá-la ter uma volta normal com suas amigas no dia seguinte, NÃÃÃÃO, a mulher ficara dias e dias enchendo-lhe a paciência até ela aceitar voltar mais cedo com o Math.
- Mãe louca – a ruiva resmungou, consigo mesma, enquanto se sentava no chão do saguão, levemente afastada dos amigos.
Estava emersa demais em seus pensamentos para notar a aproximação de Andrew, e quando deu por si, o garoto já a havia feito levantar e agora a puxava levemente pelos corredores do castelo. Os dois só pararam quando o corvino achou uma sala vazia onde, ela supôs, eles pudessem conversar sozinhos e sem serem interrompidos.
Meryam sentou-se em cima da mesa do professor em silêncio, esperando que ele começasse o falatório.
Diferente do que ela esperava, a primeira coisa que o moreno fez foi praticamente atacar seus lábios, juntando-os com os seus de uma forma que nunca havia feito antes. Meryam pode jurar que aquele beijo tinha gosto de despedida e, apesar de conformada com toda a situação, ela não gostou nem um pouco disso.
Soltaram-se ofegantes, encarando-se por incontáveis minutos.
- Por que passou o dia todo me evitando? – ele perguntou depois de um tempo de silêncio, postando-se em frente à ruiva – Aliás, por que você passou os últimos dois meses praticamente fugindo de mim?
- Achei que assim fosse deixar o dia de hoje mais fácil – ela respondeu, dando de ombros e evitando o olhar questionador do namorado.
- Em que mundo isso faria alguma coisa além de me deixar um pouco irritado e totalmente perdido?
- Pensei que isso faria você ficar com raiva de mim e terminar comigo há pelo menos umas três semanas… De acordo com meus cálculos, claro. – Meryam confessou, depois de um longo tempo de silêncio, ela parecia estranhamente fria e conformada com tudo aquilo, enquanto que o moreno parecia lutar com algum tipo de força invisível.
- Então é isso? Tudo o que você fez foi para que eu terminasse com você?
- Temos outra opção? – ela questionou – Quero dizer, eu vou me mudar para outro país!
- E você está desistindo de um ano e tanto juntos por causa disso? Fácil assim?
- Hey, não pense que eu não me perguntei sobre isso! – a ruiva declarou – Mas, encaremos os fatos! Nós temos 14 anos! É de se admirar que nosso namoro tenha durado tanto tempo.
- Justamente! Você vai jogar isso fora?
- Não tem como nosso namoro dar certo à distância!
- E você não vai nem tentar?
- Desculpe, mas não.
A resposta dela pareceu ter o efeito de um soco no estômago do Corvino.
- Olha, eu amei cada momento em passamos juntos, mas… Relacionamentos à distância são… Muito complicados, muito complexos para mim… – ela tentou argumentar, mas parecia que cada vez que ela abria a boca só conseguia machuca-lo mais e mais. – Você vai me esquecer bem antes do que imagina, e vai achar uma garota que realmente vai te fazer feliz rapidinho e… – prosseguiu, parecendo que tentava convencer-se de tudo o que falava e antes que pudesse continuar o alarme de seu relógio soou, fazendo luzinhas vermelhas se agruparem no visor até formar a frase “hora de ir”.
- Bem, er… Eu tenho que ir agora porque minha mãe já deve ter chegado… – declarou, dando um pulo de cima da mesinha e ficando de frente para o seu, agora, ex-namorado – Er… Desculpa, por tudo, mesmo…
Ele deu um sorriso fraco.
- O pior, é que eu não consigo dizer que não te entendo um pouco… – Andrew finalmente se pronunciou, dando de ombros e colocando as mãos dentro dos bolsos da calça – Você sempre é a mais decidida de todas não é, ruivinha? – continuou, numa tentativa falha de parecer cômico, sem conseguir olhá-la nos olhos. – Vá logo, você não pode deixar sua mãe esperando.
- Er… Vou indo então… Tchau… – ela respondeu, sem mais delongas, e saiu dali praticamente correndo.
- Adeus. – Ele murmurou num tom inaudível, enquanto se jogava em uma das cadeiras e entrava num estado de reflexão e dúvidas que durariam pelo menos as férias inteiras.
(…)
De volta ao saguão de entrada as despedidas foram rápidas e sem muitas palavras, pois nenhum dos dois Evans gostava muito delas, e logo a pequena família seguia para Hogsmeade numa das carruagens que se movimentavam sozinhas e se perdiam no escuro daquela noite.